Até mesmo um pior cenário na Grécia traria pouco impacto ao Brasil, afirma economista
Por João Guilherme Brotto
Em entrevista ao Portal Exame, o economista-chefe do Banco Santander, Alexandre Schwartsman, ex-diretor da área internacional do Banco Central, diz que os efeitos da crise fiscal da Grécia e de outros países europeus não serão suficientes para mudar a trajetória de crescimento econômico do Brasil.
As recentes oscilações da bolsa, a valorização do dólar e o leve aumento do risco-país são as consequências que sofremos nas últimas semanas. Não deve passar disso, segundo o economista.
O dilema fica por conta da União Europeia, que não pode deixar um dos seus membros (Grécia) dar o calote e ao mesmo tempo precisa cuidar para que não emita uma mensagem errada ao ajudar os gregos. Ou seja, “se ele pode, eu também quero”. Uma provável ajuda seria como um banquete para os PIGS europeus.
Confira os principais trechos da entrevista:
EXAME – Que efeito a crise da dívida da Grécia e de outros países europeus pode ter na economia brasileira, além do que já gerou de volatilidade na bolsa?
Alexandre Schwartsman – Algum efeito esses acontecimentos sempre têm. Mas, ao que me parece até agora, não há paralelo com o que tivemos quando houve a quebra do banco americano Lehman Brothers em setembro de 2008. Naquele momento ocorreu uma queda sincronizada da economia mundial.
EXAME – A conclusão é que esse problema, por ora, não tem potencial para abalar a economia brasileira?
Schwartsman - Como no Brasil o dinamismo vem sobretudo do consumo e dos investimentos no mercado interno, não vejo como esses eventos possam descarrilar a economia.
EXAME – Por que a Grécia está tão pior que os outros países também problemáticos, como Espanha e Portugal?
Schwartsman – A Grécia tem um problema mais agudo porque já vinha antes da crise em situação ruim, com um déficit elevado e dívida muito alta em relação ao PIB. Os gregos entraram na União Européia manipulando números fiscais. Foi como um cavalo de Tróia. Depois se descobriu o presente grego: um déficit pior do que o apresentado de início.
EXAME – Há uma saída em vista para a crise?
Schwartsman - O desafio da Europa é arranjar um jeito de estancar a crise no nascedouro sem dar chance de contágio, mas também sem passar uma mensagem errada. É certo que o alemão e os demais europeus mais ricos vão ter de pagar parte da conta dos gregos. O que está em discussão é quanto eles vão pagar e quanto vai ficar para os gregos. Teme-se que a ajuda crie um incentivo para outros países mais à frente pedirem dinheiro. Então, no momento, a União Européia está discutindo como rachar a conta.
EXAME – De que modo a hipótese pior, do calote grego, afetaria o Brasil?
Schwartsman - Para o Brasil o reflexo seria um custo maior, tanto para o governo como para as empresas brasileiras, ao contrair dívida lá fora. Poderia também haver alguma desaceleração econômica na Europa e isso reduzir nossas exportações. Mas todos esses efeitos seriam de segunda ordem, nada comparáveis ao que houve na crise que se seguiu à quebra do Lehman Brothers, quando todos os países caíram juntos. Mesmo no pior cenário, o reflexo aqui será menos importante e, desde que não signifique um fechamento do crédito, não será suficiente para descarrilar o crescimento do Brasil.

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